Há um mês no buraco

Já faz quase um mês que os moradores da Rua Mirassol, localizada no bairro Felipe Camarão, na zona Oeste de Natal, estão vivendo o desespero da incerteza. A cratera aberta após fortes chuvas no início de julho deixou a casa de Elaine Cristina à beira do precipício. A água levou até a calçada da residência a baixo.

“Eu fiquei lá até enquanto deu, mas não teve jeito. Tivemos que sair. Ainda conseguimos tirar algumas coisas. Deixamos só as duas camas dos meus filhos e um guarda-roupas. O resto veio”, contou a dona de casa. Casa, essa, que havia sido reformada há pouco tempo.

“Essa casa foi da minha avó, passou para a minha mãe e minha mãe me deu. Já tem nove anos que moro nela. Ela era bem baixinha, só tinha três vãos. Aí lutamos, sem condições alguma, pra reformar. Meu esposo nunca tinha colocado gesso, cerâmica, nem rebocado, mas fez o serviço todinho. Sozinho. Lutamos muito, muito, para poder dar um conforto aos nossos filhos. E agora não temos para onde ir”, relatou indignada.

Hoje, Elaine está morando com o esposo e os dois filhos na casa dos sogros, também em Felipe Camarão. “Eu não tenho condições de pagar aluguel. Aí vim pra casa da minha sogra, que já moram cinco pessoas e agora mais quatro. Eu tive que desabrigar minha cunhada do quarto dela, que era maior, pra poder ficar lá. Uma família toda em um quarto”, disse.

Uma de tantas outras famílias na mesma situação é a de Maria José. A diferença é que a casa onde ela morava, que também está à beira do precipício, era alugada. “Na sexta-feira anterior à abertura da cratera, eu estava na área de casa quando vi que tinha um buraco abrindo na rua. Ele era pequeno, mas foi ficando maior com muita rapidez. Aí no sábado, a Prefeitura veio e aterrou. Aí eles interditaram até a segunda casa. A minha não. Mas a Defesa Civil pediu que eu ficasse atenta, porque se desse mais uma chuva, minha casa seria atingida, segundo eles. Aí no sábado eles vieram, fizeram outro serviço, mas na manhã do domingo a tubulação explodiu e abriu tudo”, detalhou a também dona de casa.

Maria José, o esposo e quatro filhos foram para casa de parentes no mesmo bairro e, uma semana depois, se mudaram para outra casa, também alugada. Mas diferente de Elaine, ela não conseguiu tirar muitas coisas da residência anterior.

“As únicas coisas que meu marido conseguiu tirar foi o botijão de gás, o fogão e a televisão. O resto a gente recebeu doação. Sofá, cama, comida… tudo isso foi doado. Eu só vou conseguir tirar nossas coisas quando a Prefeitura aterrar tudo”, contou Maria José.

De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra), os serviços de reconstrução da rede de drenagem e pavimentação da Rua Mirassol estão sendo realizados. No entanto, a previsão para a reparação total da via ainda é incerta, uma vez que as chuvas continuam a cair e todo o trabalho feito volta à estaca zero. “O serviço que fizeram foi só colocar areia. Aí veio a chuva e levou”, disse Elaine Cristina.

Em nota, a Seinfra informou que está focada “na solução do problema e restabelecimento da via pública no prazo mínimo possível, dentro das condições climáticas favoráveis, disponibilidade de fornecedores, equipamentos e mão de obra”.