Ex-ministro diz que Bolsonaro não queria fazer campanha de orientação sobre Covid-19

Luiz Henrique Mandetta, primeiro ministro da Saúde no governo de Jair Bolsonaro (sem partido) a enfrentar a pandemia do novo coronavírus, afirmou nesta terça-feira (04/05) que o governo federal não tinha interesse em fazer uma campanha oficial de orientação sobre a Covid-19.

“Não havia como fazer uma campanha, não queriam fazer uma campanha oficial. Então, havia necessidade de manter a questão das informações”, completou. Segundo o ex-ministro, também foram feitos pedidos para que os comunicados emitidos pela pasta incluíssem, também, dados positivos como o número de curados. Ele não informou quem foram responsáveis por esses pedidos.

“Mas, realmente, havia um pedido: ‘coloque o número, por que não coloca dos curados, está colocando só número [negativo]’. Passamos a colocar, se é uma informação, colocamos informação positiva. Mas não havia essa iniciativa de comunicação”, completou.

O ex-ministro disse acreditar que o presidente Bolsonaro foi orientado por pessoas de fora do Ministério da Saúde em questões relacionadas ao combate da pandemia, incluindo a recomendação de uso da hidroxicloroquina. Ele relatou ter participado de uma reunião com outros membros do governo em que foi apresentado um rascunho de decreto presidencial com objetivo de alterar a bula da cloroquina para recomendar o uso do medicamento em pacientes com Covid-19 – apesar de não haver evidências científicas de sua eficácia.

“O ministro da Saúde é convocado pelo presidente para conversar, é chamado para prestar suas explicações. Estive dentro do Planalto quando fui informado que era para subir para o 3º andar porque tinha uma reunião de vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina – que nunca eu havia conhecido”, afirmou. “Quer dizer, ele tinha um assessoramento paralelo. Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrando de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação para coronavírus”, continuou.

Mandetta afirmou que a ideia foi barrada pelo diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, que também participou do encontro – e que será ouvido pela CPI da pandemia na quinta-feira (06/05). “O ministro Jorge Ramos [então ministro-chefe da Secretaria de Governo] falou que era só uma sugestão. Mas era uma sugestão de alguém. Alguém pensou, se deu ao trabalho de colocar aquilo no formato de decreto.” Dessa forma, Mandetta disse aos senadores imaginar que o presidente construiu, por fora do Ministério, “alguns aconselhamentos que o levaram para essas tomadas de decisão”. Ele ressaltou, porém, não saberia nomear quem seriam essas pessoas ouvidas por Bolsonaro.

O ex-ministro Nelson Teich, que ficou menos de um mês no cargo após Mandetta, também será ouvido.